Sal da vida
O que faz aí parada sozinha, assim, olhando para cima? Perguntou a velha senhora a si mesma, porém não vieram respostas e sim o suspiro de uma vida vivida para todos menos para ela.
Ela foi filha, irmã, prima, tia, amiga, tudo menos mulher. Seria pecado querer ter para si um sorriso másculo, uma voz forte para dividir a monotonia de seus dias.
Era tarde, dizia o tic-tac do relógio sobre o criado mudo. Foram tantas colchas, lençóis, cortinas para um enxoval que jamais daria em casamento. Cada vendedor que passava a convencia que o amor um dia chegaria: “compra menina, pode pagar no carnê mocinha, vai levar só a colcha senhorita, sinta a maciez desse virol senhora”...
Senhora... e eis que ali está a senhora que não tem mais para onde olhar, que se esforça para não se lembrar de um passado que não a queria presente e permitiu que ela fosse para um futuro bem distante. Ali estava ela, sentada naquele virol de falsas esperanças que toda noite levava para o quarto, à espera do sono que viria e traria os sonhos e desejos da mocidade, pois só assim poderia ser menina, mocinha, senhorita, senhora e, por que não, mulher. E assim poderia ter seus devaneios de mulher e querer ser arrancada daquele lugar, levada para de onde nunca mais voltaria, a não ser quando abrisse os olhos, percebesse o teto de madeira, o tic-tac do relógio e seus sonhos transformados em cinzas, molhados pela gota a percorrer seu rosto... chegando à boca... lembrando-a do sal da vida.


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