Blog de domingosgonzaga


10/01/2010


 

Mãe cantiga


Era madrugada e lá estava ela, se acabando de dançar, rodopiando na quadra, não se importava que em alguns instantes a noite seria tomada pelo dia e sua vida seria a mesma de sempre, sem maquiagem, sem brilho, sem fantasia.

Era assim toda sexta, o coração batia mais acelerado ao subir o morro à tarde caia lentamente como um véu de cetim do seu primeiro matrimônio, que de boas lembranças só trouxe o primogênito, mas ela ainda pensava que o amor viria, demoraria mas viria. Novenas já não fazia, não queria incomodar as santidades com seus desejos de luxúria, só queria rodopiar sem ver as horas passar, pois ali na quadra ela era a rainha da noite, dançava sem pensar em mais nada. O primogênito em casa punha a ninar com os sambas do morro, a claridade que lhe afastava o medo era a vela ao lado da cama e as histórias na calada da noite com as cantigas da mãe guerreira que sem saber fazia crescer ali mais um sonhador, e assim  ele se encontrava com Orfeu, a doce bacante se preparava para hipnotizar seus súditos, cada toque de tambor era um sopro de vitalidade,  ela esquecia da profissão, dos carnês e da ausência do que não tinha, e o tamborim, a cuíca era do que ela precisava para dar ao seu corpo moído pelas horas de labor o descanso da cadência.

Em sua veias, corria samba, seu músculo central irrigava uma forte batida chamando a periferia para se juntar a uma só nota.

Ela na quadra, seu filho em casa. Ela sonhando acordada seu filho sorrindo, adormecido.

Esquecia da figura materna, para ser mulher e sentir-se samba como canção, letra e dança.

Rodopiando, pisando em nuvens, fazendo de cada som uma harmonia  que só encerrava com o nascente do dia, pondo por terra a mulher-canção trazendo enfim a mãe cantiga.

 

Escrito por domingosgonzaga às 20:02
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18/09/2009


Sal da vida

 

O que faz aí parada sozinha, assim, olhando para cima? Perguntou a velha senhora a si mesma, porém não vieram respostas e sim o suspiro de uma vida vivida para todos menos para ela.

Ela foi filha, irmã, prima, tia, amiga, tudo menos mulher. Seria pecado querer ter para si um sorriso másculo, uma voz forte para dividir a monotonia de seus dias.

Era tarde, dizia o tic-tac do relógio sobre o criado mudo. Foram tantas colchas, lençóis, cortinas para um enxoval que jamais daria em casamento. Cada vendedor que passava a convencia que o amor um dia chegaria: “compra menina, pode pagar no carnê mocinha, vai levar só a colcha senhorita, sinta a maciez desse virol senhora”...

Senhora... e eis que ali está a senhora que não tem mais para onde olhar, que se esforça para não se lembrar de um passado que não a queria presente e permitiu que ela fosse para um futuro bem distante. Ali estava ela, sentada naquele virol de falsas esperanças que toda noite levava para o quarto, à espera do sono que viria e traria os sonhos e desejos da mocidade, pois só assim poderia ser menina, mocinha, senhorita, senhora e, por que não, mulher. E assim poderia ter seus devaneios de mulher e querer ser arrancada daquele lugar, levada para de onde nunca mais voltaria, a não ser quando abrisse os olhos, percebesse o teto de madeira, o tic-tac do relógio e seus sonhos transformados em cinzas, molhados pela gota a percorrer seu rosto... chegando à boca... lembrando-a do sal da vida.

Escrito por domingosgonzaga às 17:45
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29/08/2009


À igreja de Nossa senhora do Rosário com (carinho)

 

Entre o novo e o velho,

Escadas e pedras

Vejo-te soberana.

 

És tão simples, tão bonita,

Encanto-me em te ver de frente,

Silenciando-me quando te vejo.

 

Oro, enquanto tuas imagens

Estão a me olhar e, em silêncio,

Estão a me abençoar,

Percebo que sozinho nunca hei de estar.

 

Tu és

        Pedra,

                  Contorno,

                                  Admiração,

                                                    Presença,

nunca serás ilusão.

 

 

Escrito por domingosgonzaga às 15:26
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04/08/2009


Olhos de Jabuticaba

 

E agora que a casa está vazia, que eles já se foram o que posso fazer? Olho pela janela e não a vejo... Fico esperando ela chegar de mansinho, com os grandes olhos de jabuticaba...

Ando pelas ruas tentando entender, mas... Para quê? Se eu nem mesmo me entendo, vou querer entendê-la... Deixo-a ir como chegou, sem permissão!

Mas era tão bom tê-la, ali parada, sem dizer nada, sem precisar fazer nada nem me aproximar... Porém, o importante era, tê-la ali, próxima ou distante, mas sempre ali. Não precisava ir próximo a ela, mas era tão importante saber que estava ali presente, em minha vida, em nossas vidas...

Sinto uma dor no peito que vem e vai num compasso desenfreado que eu não consigo parar, que às vezes quero que continue, mas outras, quero que pare e suma como um sopro e que tudo volte ao normal, que eu tenha meus dez anos e que a vida torne a sorrir... Que tudo seja como antes. Mas percebo que estou com os pés no chão, gelados, mostrando-me que o tempo não volta, que a dor não passa e que a vida... Ah... A vida continua freneticamente. Não vai parar nem que eu queira descer, nem que eu possa descer!

A vida continua, a saudade fica. E os olhos de jabuticaba... Esses se foram e eu não posso mais esperar por eles nas ruas de minha vida. Só posso fechar os olhos, abrir o coração e observá-los com a saudade de quem os viu um dia, pois agora somente eles me vêem.

Escrito por domingosgonzaga às 14:12
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01/08/2009


Lá de cima do morro

Desde o nascer o povo já sabe

Não é preciso ciência,

Tão pouca competência

Pra se ver a incoerência.

 

Já na cidade não tem diferença

O que acontece no morro

Na cidade é em comboio.

 

Quando a cidade avista o morro

Esconde o bolso

Quando o morro olha a cidade

Já não tem esperança,

- é tanta falsidade!

Que às vezes se perde a coragem.

 

E o menino no cair da tarde

Acompanha a cidade,

Cantarolando na flor da idade

_ ta faltando emprego!

 

Escrito por domingosgonzaga às 21:44
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26/05/2009


 

Feitiço da lua

 

Não tenho como provar que me assanhas

nem como me comandas.

És fagueira,

ciumenta,

traiçoeira?

Sim, pois nem todas as noites vem!

E quando achas de não vir.

em prantos coloco-me a ficar.

Malvadas, de certo.

Pois sabes que a ti fico a contemplar.

E quando dia torna-se,

me vejo com o sol a brincar.

À noite ao chegar negas a mim teu olhar!

Por tempo só tenho a esperar

que essa feiticeira deixe-me vê-la em altar!

Escrito por domingosgonzaga às 17:26
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À Ouro preto


Sublime senhora,

Que aos outros os olhos engordam,

Aos pretos sufocam.

Que em Vila compõem o nome

Que até em nome já foi e é Rica,

Que inesgotavelmente gera filhos,

E consciente os adota por toda vida.

Em cerimônia curvo-me a perguntar?

-Que mistério tricentenário a de guardar?

Conquistas amantes,

Inspiras artistas,

Embriagas sóbrios.

Quão belos são o vosso conjuntos

Generosas suas curvas

Fiéis somos nós a vossos templos.

Aleijados teus artistas!

Figuras imponentes e o globo a vós se curvam

Gerais teu valores

Que Minas escondes em teus seios?!

Inconfidente é aos tolos,

Pois se trata de filhos

Sabes que estes morrem

Por teus valores.

Escrito por domingosgonzaga às 17:07
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