Mãe cantiga
Era madrugada e lá estava ela, se acabando de dançar, rodopiando na quadra, não se importava que em alguns instantes a noite seria tomada pelo dia e sua vida seria a mesma de sempre, sem maquiagem, sem brilho, sem fantasia.
Era assim toda sexta, o coração batia mais acelerado ao subir o morro à tarde caia lentamente como um véu de cetim do seu primeiro matrimônio, que de boas lembranças só trouxe o primogênito, mas ela ainda pensava que o amor viria, demoraria mas viria. Novenas já não fazia, não queria incomodar as santidades com seus desejos de luxúria, só queria rodopiar sem ver as horas passar, pois ali na quadra ela era a rainha da noite, dançava sem pensar em mais nada. O primogênito em casa punha a ninar com os sambas do morro, a claridade que lhe afastava o medo era a vela ao lado da cama e as histórias na calada da noite com as cantigas da mãe guerreira que sem saber fazia crescer ali mais um sonhador, e assim ele se encontrava com Orfeu, a doce bacante se preparava para hipnotizar seus súditos, cada toque de tambor era um sopro de vitalidade, ela esquecia da profissão, dos carnês e da ausência do que não tinha, e o tamborim, a cuíca era do que ela precisava para dar ao seu corpo moído pelas horas de labor o descanso da cadência.
Em sua veias, corria samba, seu músculo central irrigava uma forte batida chamando a periferia para se juntar a uma só nota.
Ela na quadra, seu filho em casa. Ela sonhando acordada seu filho sorrindo, adormecido.
Esquecia da figura materna, para ser mulher e sentir-se samba como canção, letra e dança.
Rodopiando, pisando em nuvens, fazendo de cada som uma harmonia que só encerrava com o nascente do dia, pondo por terra a mulher-canção trazendo enfim a mãe cantiga.


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